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“Sempre ressonei, é de família.” “É do stress do trabalho.” “Já não tenho idade para andar cheio de energia.”

São três frases que se ouvem quase todas as semanas em consultório. E, quase sempre, quem as diz não está a falar de uma doença — está a descrever o que considera ser a sua vida normal. É precisamente por isso que as consequências da apneia do sono passam tantos anos sem ser levadas a sério: não doem, não obrigam a faltar ao trabalho, e instalam-se tão devagar que a pessoa deixa de ter memória de como era antes.

Mas a apneia do sono não é ronco. É uma perturbação respiratória em que as vias aéreas colapsam repetidamente durante a noite, interrompendo a respiração e fragmentando o sono — muitas vezes dezenas de vezes por hora, sem que a pessoa chegue a acordar por completo nem a dar por isso. É uma condição reconhecida pelo Serviço Nacional de Saúde e com critérios de diagnóstico bem estabelecidos.

consequências da apneia do sono

O problema de quem não consegue ver o que lhe acontece

Há uma particularidade nesta condição que explica muito do atraso no diagnóstico: quem tem apneia do sono não assiste ao que se passa consigo. Está a dormir.

Os despertares são breves demais para deixar memória. A pessoa levanta-se convencida de que dormiu oito horas, porque de facto esteve oito horas na cama. O que não sabe é que esse sono foi partido em bocados e nunca chegou às fases profundas, aquelas em que o corpo recupera de facto.

Quem vê o problema é quem dorme ao lado. E é por isso que, na maioria dos casos, o primeiro alerta não vem do próprio — vem do companheiro ou companheira.

As consequências da apneia do sono que ninguém associa ao problema

O sono deixa de cumprir a sua função

Dormir e descansar não são a mesma coisa. Com o sono constantemente interrompido, o corpo não completa os ciclos necessários à recuperação física e à consolidação da memória. O resultado é uma sonolência que acompanha o dia inteiro e que a pessoa aprende a normalizar: adormecer em frente à televisão, precisar de café a meio da tarde, sentir as pálpebras pesadas ao volante em viagens longas.

Este último ponto merece atenção. A sonolência ao volante é uma das consequências da apneia do sono mais bem documentadas, e é dos motivos mais sérios para não adiar uma avaliação.

A energia para a atividade física desaparece

Esta é das consequências menos faladas e das que mais afeta a qualidade de vida no dia a dia.

Quem não dorme bem tem menos tolerância ao esforço, recupera pior entre treinos e sente-se cansado antes de começar. O que costuma acontecer é a pessoa concluir que está a envelhecer, ou que perdeu a forma, e reduzir progressivamente a atividade física — quando o que se passa é que o corpo nunca teve a noite de que precisava para recuperar.

E aqui instala-se um ciclo difícil de quebrar: menos atividade física tende a favorecer o aumento de peso, e o excesso de peso é um dos fatores que agrava a apneia do sono. O problema alimenta-se a si próprio.

sonolência diurna causada pela apneia do sono

A saúde a longo prazo

Entre as consequências da apneia do sono não tratada, a literatura médica descreve associação com risco aumentado de hipertensão arterial, doença cardiovascular e alterações metabólicas, incluindo a diabetes tipo 2. Está também associada a maior prevalência de sintomas de ansiedade e de depressão, e a dificuldades de concentração e de memória.

Nenhuma destas consequências aparece de um dia para o outro. Aparecem ao longo de anos — o que torna ainda mais fácil atribuí-las à idade, ao trabalho ou ao stress.

A parte de que ninguém fala: o casal

Há uma consequência da apneia do sono que raramente entra nas conversas de consultório, e que é frequentemente a que mais pesa na vida das pessoas.

O ronco alto e as pausas respiratórias não afetam só quem dorme. Afetam, noite após noite, quem está do outro lado da cama. O companheiro ou companheira acorda várias vezes, tem o seu próprio sono fragmentado, e acaba por acumular o mesmo cansaço — sem sequer ter a condição.

A solução a que muitos casais chegam, quase sempre sem a discutir abertamente, é passarem a dormir em quartos separados. Começa como uma medida temporária, “só esta semana, que tenho de me levantar cedo”, e torna-se permanente. Não é uma decisão dramática nem sinal de que a relação está mal — é simplesmente a única forma que encontram de os dois descansarem.

Mas tem um custo. Perdem-se as conversas de fim de dia, a rotina partilhada de ir para a cama, a proximidade física que não tem nada a ver com sexo e tudo a ver com companhia. E há frequentemente um resíduo de culpa em quem ronca, e de frustração em quem não consegue dormir, que ninguém verbaliza.

Vale a pena dizer isto com clareza: dormir em quartos separados por causa do ronco não é um problema de casal. É um sintoma. E, ao contrário da maioria dos sintomas, este tem solução.

casal afetado pelo ronco e apneia do sono

Quando procurar ajuda

Não é preciso ter todos estes sinais para justificar uma avaliação. Bastam alguns, se forem persistentes:

  • Ronco alto e frequente, sobretudo se alguém já reparou em pausas na respiração
  • Sono que não repara, mesmo com horas suficientes na cama
  • Sonolência durante o dia, em especial ao conduzir ou em reuniões
  • Dores de cabeça ao acordar
  • Dificuldade de concentração ou lapsos de memória
  • Irritabilidade ou alterações de humor sem causa aparente
  • Vontade de urinar várias vezes durante a noite

Se está a ler isto a pensar noutra pessoa e não em si, também conta. Como vimos, quem tem apneia raramente é quem dá pelo problema.

Como evitar as consequências da apneia do sono

O primeiro passo é o diagnóstico, através de um estudo do sono — hoje possível em casa, numa noite de sono normal, sem internamento.

A partir daí, o tratamento depende da gravidade e das características de cada caso. O CPAP é a terapia de referência nos casos mais graves. Nos casos ligeiros a moderados, e em situações de intolerância ao CPAP, o dispositivo de avanço mandibular é uma alternativa a considerar: é um aparelho feito à medida, usado apenas durante a noite, que mantém a mandíbula ligeiramente à frente para ajudar a manter as vias aéreas abertas.

Há ainda medidas comportamentais que fazem parte de qualquer abordagem — controlo de peso, terapia posicional, redução do álcool ao final do dia.

O que não é opção é continuar a atribuir tudo à idade e ao stress.

Na Clínica Mint tratamos a componente de medicina dentária do sono e acompanhamos todo o processo, incluindo a marcação do estudo do sono. Se se reconheceu neste texto — ou reconheceu alguém —, marque uma avaliação.

dispositivo de avanço mandibular para tratar a apneia do sono